Gladston Mamede | Direito Empresarial Brasileiro - Falência e Recuperação de Empresas

1 O RISCO DE EMPREENDER A insolvência, a incapacidade de adimplir as obrigações, é normalmente objeto da ampla repreensão social. Palavras como insolvente , falido , quebrado estão marcadas por um valor negativo, vexatório, intimamente ligado à ideia de caloteiro , criminoso , fraudador , desonesto , trapincola , entre outros. A insolvência é por muitos considerada ummotivo de desonra e infâmia, um estado análogo ao crime, uma nódoa indelével na história de uma pessoa. É uma tendência antiga, que tem em seu histórico até sustentação jurídica, como na prática de considerar infames os falidos ( fallit sunt infames et infamissimi ). 1 Toda essa incompreensão e agressividade derivam da impressão geral de que o insolvente chegou a esse estado porque quis, por ser desonesto. É claro que a insolvência pode resultar de atos dolosos, de desonestidade; o devedor pode, sim, ter desejado passar os credores para trás. Também pode resul- tar de culpa grave , fruto da desídia extrema para com os negócios, imprudência exagerada na sua condução, abusos no direito de administração, em desproveito da segurança alheia etc. Isso ocorre e, infelizmente, não é raro. Mas é fraude, não é regra geral da falência. O fracasso é um elemento intrínseco à iniciativa: há, em toda ação humana, uma esperança de sucesso e um risco, mesmo não considerado, de fracasso. Ser humano é conviver, mesmo inconscientemente, com riscos. Risco pelo que se faz e, mesmo, pelo que não se faz. Risco que segue com aquele que 1  BARRETO, Cunha. Depósito elisivo do estado falimentar. Revista Forense , Rio de Janeiro, ano 35, v. 75, jul./set. 1938, p. 106-107. 1 Insolvência

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